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batismo

batismo

desarmou-se como que esgotada a fé
perdera por completo aquele estigma invisível e familiar,
o brio que fazia-o não mais um
mas mais O
os colegas lhe atribuíam adjetivos grandiosos
pra não dizer grandiloquentes e
confundi-lo
afinal, confundia-se com tudo
era tanto mais ouvinte que orador
tanto mais hospedaria que hóspede
tanto mais sozinho que solitário
era em verdade uma casa abrigando uma coleção
dessas coleções que fazemos em criança
e que um dia, no acaso de uma gaveta,
nos pega de empreita às lembranças
uma casa abrigando uma coleção de palavras inauditas
sustenidas
palavras miudinhas
não era nada além dessa casa esquecida
casa sem chão sem teto sem paredes sem medidas
mas ainda uma casa, não é certo?
do alpendre pode-se ver a lua iluminando tudo
aliás, nada
não se vê nada além da lua iluminando a falácia tudo
doía naquele homem prostrado ante a janela-mundo,
seu olhar triste e embaçado por lágrimas teimosas,
observar o astro e descobrir-se ora ínfimo demais
ora um sem deus ora sem nada pra suscitar-lhe
antítese
desarmou-se como quem desarreia um cavalo
fora até a capela São José Operário correndo
descalço
certificar-se de que não mais era preciso
subir n'algum banco pra alcançar a aldraba. 

A aldraba soube dar nome ao que ele sentia
sem precisar sinal da cruz ou semelhante coisa.

zé - 19 de maio de 2019

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