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Há uma coisa que ninguém diz sobre trabalhar com aquilo que gostamos e, não, eu não estou dizendo sobre o infame ditado popular “e nunca mais amará nada na vida”.

Não que alguém se importe com tamanha contextualização histórica, mas é que tendo eu, aprendido a escrever tão criança — por volta dos quatro anos de idade, (fazer construções frasais como essa: “tendo eu aprendido” com um aposto gigantesco para enfim chegar onde pretendo) —, tal regressão é muito mais do que ser tão somente prolixa. A questão envolve, obviamente, um apreço muito particular pelas palavras e pela combinação delas para formar um texto, seja lá qual seja ele, com o objetivo de informar o que quer que seja.

Longe de mim romantizar o processo de alfabetização (mas já romantizando) — cometendo mais um clichê prosaico —, poderia afirmar que esse foi doloroso no corpo, como é o crescimento físico. Ouvi dizer que doem os ossos, mas eu não me recordo dessa dor. A qual me lembro era nos olhos, ardendo, de ficar tantas horas olhando para o quadro negro, no qual a professora, vez e outra, acabava, sem querer, riscando-o de modo a arranhá-lo e o chiado dele causar “arrepio” inclusive nela mesma. A sala ria, e, anos mais tarde, descobri que há o riso da dor, do constrangimento. Lembro-me também da primeira vez que consegui juntar letras e formar uma palavra. Estava no carro, com meu pai e meu irmão. A dor da separação dos progenitores ainda estava ali, latente, mas de vez em quando era apaziguada pelos bons momentos, quinzenais, ao lado dele. “‘Co-fa-pê’ — (anos mais tarde, meu pai me deu meu segundo animal de estimação, mais um cofap, o cachorro salsichinha, dessa vez fêmea, a Lessie) — olha, pai, aquela palavra ali é igual à do seu boné”. Estávamos parados no semáforo, numa das avenidas principais de Goiânia, voltando do Clube dos Oficiais, onde passávamos sábados inteiros, para a casa da minha avó paterna. Ele olhou para o banco de trás e disse, sorrindo: “Você leu?”

Hoje sei que identificar cores e símbolos também é leitura, mas, à época, se me pediram para ler mais coisas, talvez eu não tenha obtido tanto sucesso quanto na leitura da marca de amortecedores. A partir daí, gosto de imaginar assim, foi que passei a brincar de escolinha com todos meus bonecos e bonecas. Sentava-os todos em roda, um semicírculo, e eu ficava à frente. Isto é, o objetivo ali era valorizar a troca e não a atenção convencionalmente dada ao professor, como na organização tradicional de fileiras, que foi o modo como sempre estudei (e como lecionei, anos mais tarde).

Quem diria que trabalhar com escrita pressuporia fazer o que eu faço há tanto tempo, desde tão criança, e não saber precificar. Isso é o que não se diz sobre trabalhar com aquilo que amamos… a interrupção no desenvolvimento deste texto não foi registrada em lugar algum, por pessoa nenhuma. Às 10 horas entrei em uma “monitoria” (aula particular), online, com o objetivo de auxiliar uma aluna a reescrever um texto dissertativo-argumentativo (sem ter tido acesso à coletânea que motivou a escrita dele) e agora a pouco, às 12h22min., foi que consegui encerrar a chamada. Por que eu não interrompi a ligação quando atingi os trinta minutos destinados a essa aluna? São vários os motivos, eu tinha tempo, ela também. Eu gosto de ensinar e ver que o que estou dizendo está sendo compreendido. Ela tinha uma cara de desespero, de quem esperava que o produto de seu cérebro estivesse à altura do — sem saber — sorriso de aprovação do meu pai. Eu continuei na chamada porque ouvir um agradecimento pela paciência, me remete à minha cara infantil de espanto interno: “eu li?”

Sobretudo, o professor não é ensinado a abandonar um estudante em meio ao caos. Foi assim que eu consegui, aos trinta anos de idade, um burnout e um diagnóstico (talvez tardio) de ansiedade depressiva, porque o que eu faço é, doentiamente, o que eu sou, o que eu pude ser. Evidentemente, se a conjuntura favorecesse, eu receberia por cada minuto a mais que gastei riscando o giz no quadro, mas o neoliberalismo insiste em dizer que é necessário trabalhar com amor. Esse texto não é um conselho, apesar de parecê-lo. Se tiver que ser encaixado em algum gênero textual, chamem-no de depoimento, mesmo que ninguém tenha me perguntado.

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